Introdução: Tratar sobre essa temática, torna-se um desafio, partindo do ponto de vista, que vivemos momentos em que a igreja brasileira “pendula” para posições extremadas sobre como deve vivenciar e realizar a sua missão evangelizadora e discipuladora.

I – O contexto do Sertão 

Quando olhamos para o sertão nordestino temos já “caricaturada” a imagem de um povo sofrido, pobre, de pouca cultura, castigado pelas secas. Mas a razão maior da pobreza e miséria no sertão não é apenas a seca. Em seu livro “Missionários para o Sertão Nordestino – desafios, capacitação e evangelização integral”, O Pr. Ildemar Nunes de Medeiros, ressalta:

“O sertanejo sofre mais com as injustiças sociais do que com a escassez de recursos naturais. Padece com a “indústria da seca”, manipulada por interesses políticos e por grupos poderosos, ou seja, a atitude mais comum é que se atribuam as causas da pobreza nordestina à natureza, ao clima, à geografia, quando na verdade as causas são decorrentes de problemas políticos, sociais e culturais, historicamente construídos”. 

Percebe-se que no contexto sertanejo, há necessidades variadas, pobreza, analfabetismo, doenças, vulnerabilidade social, etc.  É um ambiente propício para a realização de ação social e de assistencial social. Todavia, como sou nascido e criado no sertão, percebo que há ações sociais que não contribuem com a evangelização, pela forma como são realizadas. |Em seu livro “A Missão Cristã no Mundo Moderno”, o John Stott, apresenta alguns conceitos sobre essa temática: 

“Qual deveria ser a relação entre evangelismo e ação social no contexto da responsabilidade social? (…) Primeiro, alguns consideram a ação social um meio de evangelismo. (…) Em sua forma mais ostensiva, isto faz do trabalho social (seja alimentação, saúde ou educação) o açúcar no comprimido, a isca no anzol, ao mesmo tempo em que, em sua melhor forma, dá ao evangelho uma credibilidade que, de outra maneira, ele não teria. Em qualquer dos casos o cheiro de hipocrisia permeia nossa filantropia. (…) E o resultado de fazer do nosso programa social um meio para outro sim é que produzimos os chamados “cristãos cesta básica”. (…) A segunda maneira de relacionar evangelismo e ação social é melhor. Ela diz respeito à ação social não como um meio para o evangelismo, mas como uma manifestação do evangelismo, ou pelos menos, do evangelho que está sendo proclamando. Podemos quase dizer que ação social torna-se o “sacramento” do evangelismo, pois faz a mensagem significativamente visível. (…) Se for, ainda assim, e talvez até conscientemente, elas são apenas um meio para justificar um fim. Se as boas obras forem uma pregação visível, então elas esperam um retorno; mas se as boas obras forem o amor visível, então elas são feitas “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35). Isso me traz ao terceiro modo de explicar a relação entre evangelismo e ação social, que creio ser a forma verdadeiramente cristã, ou seja, que ação social é uma parceira do evangelismo. Como parceiros, os dois se completam, mas são, mesmo assim, independentes entre si. Lado a lado, cada um se sustenta por si e possui sua própria autonomia. Nenhum deles é um meio para o outro, pois cada um é um fim em si mesmo. Ambos são expressões de amor genuíno. Como o Congresso Anglicano Evangélico Nacional em Keele declarou, em 1967, “Evangelismo e serviço de compaixão pertencem, juntos, à missão de Deus” (parágrafo 2.20)”. 

Temos, portanto a compreensão que evangelismo não é ação social e ação social não é evangelismo! Todavia, há uma simbiose entre essas ações no cumprimento da missão de Deus nesse mundo, conciliar e manter o equilíbrio em nossa práxis missionária no sertão exige de nós uma compreensão bíblica e teológica pautada nos ensinos de Cristo sobre a referida temática. Quem sabe, essa falta de compreensão nos leve a praticar a ação social como um meio para “evangelizar” pessoas carentes, tentar aproximar pecadores de Cristo por outros meios desassociados do evangelho e/ou sem explicar o mesmo pode ser desastroso. Tenho visto ao longo de minha caminhada pelo sertão isso acontecer. Missionários que tem pautado suas ações missionárias prioritariamente através da ação social, acabam criando dificuldades no proclamação do evangelho em determinadas regiões muito carentes de nosso interior sertanejo. Reproduzindo a citação acima do John Stott, “E o resultado de fazer de nosso programa social um meio para outro fim é que produzimos os chamados “cristãos cestas básicas”. Há sim esse perigo no sertão e quando se cria essa cultura na qual a igreja chega numa comunidade primeiramente para realizar essa ação social, mesmo antes de se fazer conhecida: quem é, a quem serve e o que pretende anunciar, perde-se o foco! Perde-se a essência da proclamação bíblica das boas novas! 

2- A evangelização como prioridade na proclamação das boas novas.

O termo evangelização nem sempre nos traz uma definição clara do que seja e de como devemos realizá-la, podemos estar realizando algumas atividades no intuito de evangelizar, sem contudo, entendermos biblicamente o que isso significa!

Segundo Wagner (1995, p. 124) descreve há imprecisão quando tratamos dessa temática: 

Muitos cristãos agem como se o significado da palavra evangelização fosse tão óbvio que não precisasse de elaboração mais aprofundada. Até mesmo alguns autores de livros sobre evangelização caem nesta armadilha. […] mais da metade dos livros sobre evangelização, os autores nunca param para explicar exatamente em que sentido usam esse termo. Como muitos outros, eles pressupõem uma definição de evangelização, e quando o fazem, normalmente adotam o que considero uma definição inadequada. 

Acredito que é justamente nessa falta de definirmos clara e biblicamente o que é a evangelização, que abrimos espaço para nos distanciarmos tanto de seu entendimento como de sua prática. A evangelização não é um programa a mais nas atividades da igreja, não é apenas mais um departamento que elaboramos para atingir metas, a evangelização é uma ação natural de uma igreja que encarna o evangelho que ensina e que viva a verdade que proclama. 

A evangelização pode ser definida como sendo a proclamação da obra salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo aos homens. Um dos maiores evangelistas da história recente, Graham (1983. p. 6) afirma que: […] a evangelização preocupa-se com as pessoas e o seu relacionamento com Deus e também o seu relacionamento e responsabilidade para com o seu próximo. O anúncio dessa proclamação é exclusivo da igreja e deve ser analisado dentro do seu contexto bíblico teológico, não dos seus resultados. Tudo o que a igreja local está de fato fazendo pode ser chamado de evangelização? Para Packer (1990, p. 22): […] Nem toda proclamação que “surte efeito” é evangelização e, nem toda a pregação que “não alcança os resultados esperados”, deixou de ser evangelização. Queiróz (1998, p.15) define evangelização da seguinte forma: […] É o trabalho que igrejas e indivíduos fazem dentro de seu contexto cultural geográfico. Falando em termos práticos a evangelização é a proclamação do evangelho de Cristo através de sua igreja que é enviada ao mundo como sal e luz (Mateus 5.13-16). Segundo Gonçalves (2019, p. 17) 

A função da evangelização é uma das expressões máximas da Grande Comissão. Por isso, sua comunicação precisa ser eclesiológica, teológica, dinâmica, contextual e integral. A Grande Comissão é moldada no evangelismo, na evangelização, na integração dos novos convertidos e no discipulado cristão. […] Reiteramos que a Grande comissão tem suas quatro faces para ser praticada pela igreja. Há igrejas que dão ênfase só na evangelização e se esquecem da integração; outras têm seu foco na integração, mas se esquecem do discipulado; e sobre o evangelismo, nem comentam. (Grifo meu).

No contexto do sertão, a escassez de treinamentos e cursos voltados para área missionária pode ser a causa da perpetuação de uma evangelização descontextualizada e as vezes desassociada dos princípios bíblicos. No afã de conseguir ganhar pessoas para Cristo (ou mesmo para a sua igreja) muitas vezes os missionários-plantadores de igrejas, buscam a utilização de várias atividades com o propósito de atrair pessoas para a igreja; todavia, nem sempre está acontecendo uma evangelização bíblica e Cristocêntrica. É nesse contexto que a ação social, muitas vezes acaba se tornando um meio para “demonstrar o amor de Deus”, ou como citam muitos, a igreja pregando com suas obras. Portanto, vamos a tentativa de definirmos o que é ação social, assistência social e assistencialismo. Jamais a igreja de Cristo falhará em sua missão evangelizadora se ela pregar a Cristo: 

Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos, mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. (I Co 1.22-24).

3- A Evangelização tendo como parceira a Ação Social – como podemos conciliar essa simbiose? Sem que uma possa depender da outra para e com os seus resultados. 

Tenho observado alguns missionários tentando plantarem igrejas tendo como “locomotiva” a ação social ou mesmo projetos sociais de desenvolvimentos de áreas carentes. Todavia, apesar de alguns avanços percebidos em alguns lugares, é preciso notificar, que sempre há o perigo do projeto ou da ação social gerar uma dependência dela mesma, ao invés de causar o sentimento de dependência de Deus e de seu cuidado.  Atentando para esse perigos iminentes na evangelização do sertão, bem como procurando equilibrar a parceria que esta deve ter com a ação social. Quero mencionar um entendimento que considero equilibrado do pastor e missiólogo, Ronaldo Lidório (2018, p. 130-31):

Devemos entender que: 1) A ação social não produz fé. Ao contrário, é um resultado da fé; 2) A ação social se justifica pela necessidade de aflito. Não é um balcão de troca pela fé; 3) A ação social cria um ambiente propício para que a nossa fé seja percebida e outros sejam atraídos a Cristo, glorificando a Deus, como se lê em Mateus 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”. 

Entendo que Lidório foi coerente com o a temática, quando não exalta a ação social como algo que deve ser feito a qualquer custo, sem contudo, ter os critérios bíblicos. Acredito que um grande equívoco hoje em algumas “teologias missionárias” é dizer que tudo o que a igreja faz é missão! Esse entendimento que tudo é missão causa uma confusão na efetivação da missão. “Se tudo é missão, nada é missão”. (Stephen Neil). Confundimos ou podemos confundir ação social com evangelismo, assistência social com evangelização, eventos e programas como se fosse integração de novos convertidos. 

Surge então um questionamento – como podemos conciliar essas duas ações – evangelismo e ação social no contexto do sertão?

Definindo a ação social, no sentido que estou falando: ação social é uma ajuda necessária e especifica realizada por alguém, ou por um grupo de pessoas, no intuito de socorrer uma família e/ou indivíduo que esteja extremamente necessitado, Ex. Falta de alimentos, vestes ou doenças. (Tg 2.15-16; II Co 9.9-13; I Jo 3. 16-17).

Assistência Social – é uma ação mais elaborada que intenta mudar a realidade social, econômica, cultural de alguém, ou de uma família ou de uma comunidade. Tenta promover um pouco de seguridade social, diminuindo a vulnerabilidade social. Ex: Os projetos sociais do Governo Federal tem como política pública promover o desenvolvimento e erradicar a vulnerabilidade social dos menos favorecidos, embora isso nem sempre ocorra, pelo contrário, percebemos que tem causado também uma acomodação e dependência ao Programa.

Então, segundo a orientação do Lidório (2018, p.131) temos:

“Ao olharmos para uma área, bairro, cidade, segmento social ou etnia, devemos nos perguntar como podemos comunicar Cristo e a Palavra de forma que os valores do Reino produzam salvação e transformação espiritual, bem como um público testemunho social. 

Alguns passos a serem dados:

  • Peça ao Senhor para sensibilizar seu coração e seus olhos, para enxergar e se condoer; ter verdadeira compaixão pelos que sofrem.
  • Busquem os segmentos mais sofridos, como as viúvas, órfãos, encarcerados, enfermos, imigrantes e solitários.
  • Desenvolva uma linha de ação a partir do perfil da sua igreja. Se há um corpo presente de médicos e enfermeiros, promova clínicas volantes. Se há pessoas dispostas, inicie uma creche de auxílio à comunidade carente. Se há um corpo de psicólogos, desenvolva um programa de auxílio às doenças emocionais.
  • Inicie um projeto pequeno e experimental e envolva-se pessoalmente neste projeto.
  • Envolva a igreja com a sociedade, ensinando que em todas as áreas da vida (espirituais ou sociais), o crente deve ser luz que brilha. 
  • Não se deixe corromper pela revolta contra a miséria e injustiça, pois um espírito revoltado não possui equilíbrio para as decisões. (grifo meu).
  • Mantenha em mente que a Palavra é o melhor instrumento e o maior bem que você pode usar e entregar a uma sociedade, pois só o evangelho produzirá transformação durável e permanente. 

Portanto, a exposição feita por Lidório busca esse equilíbrio, ela aponta ações que podem nos ajudar em nosso envolvimento através da ação social ou das obras de misericórdia.

Ele tem nos convoca a olharmos o que dispomos na igreja se temos profissionais que podem e devem, se desejarem (voluntariamente) envolver-se em alguma ação social que possa fazer a diferença em seu próprio contexto. Mas a fala aqui não gira em torno de algo que a igreja tem que fazer senão… mas algo que a igreja pode também fazer enquanto cumpre a Grande Comissão: evangelizadora e discipuladora. 

É exatamente esse equilíbrio que precisamos buscar, no qual a ação social nos ajuda a proclamar o amor de Deus através de nossas boas obras (Mateus 5.16), sem contudo se tornar um substituto da proclamação das boas novas e da apresentação do plano da salvação na pessoa bendita do Senhor Jesus Cristo. 

É possível sim, conciliarmos a evangelização com ação social, isto nunca deveria nos preocupar a ponto de termos que debater tanto sobre essa temática. Todavia, como ao longo do desenvolvimento de nossa missiologia temos sofrido influências diversas, agora se faz necessário atentarmos sobre como estamos fazendo e cumprindo nossa missão para que não transformemos nossas plantações de igrejas apenas em projetos de desenvolvimento comunitário, que não venhamos a transformar nossa ação social em uma ONG que vai suplantar o avanço e a relevância da igreja, quando esta tem que sobrevier à sombra daquela! 

Portanto afirmo que a missão da igreja – primordialmente como vista na Grande Comissão, na igreja primitiva mostrada em Atos e na vida de Paulo – é ganhar pessoas para Cristo e edificá-las em Cristo. Fazer discípulos para Cristo – essa é nossa tarefa!

*O autor Luciano Costa. É pedagogo, e pastoreia a Assembleia de Deus na cidade de Santana do Matos-RN. Coordena a EMITES – Escola Missionária de Treinamento Estratégico para o Sertão. 

Contato: (84) 9.9939-1042 E-mail: luckcosta1@hotmail.com